11 de julho de 2017

American Gods - Opinião

Título: American Gods
Autor: Neil Gaiman
Editora: Headline
Páginas: 635
Sinopse:
"Days before his release from prison, Shadow’s wife, Laura, dies in a mysterious car crash. Numbly, he makes his way back home. On the plane, he encounters the enigmatic Mr Wednesday, who claims to be a refugee from a distant war, a former god and the king of America.

Together they embark on a profoundly strange journey across the heart of the USA, whilst all around them a storm of preternatural and epic proportions threatens to break.

Scary, gripping and deeply unsettling, American Gods takes a long, hard look into the soul of America. You’ll be surprised by what – and who – it finds there..."

Opinião:

Agora que entrei em modo férias e ajudada por umas semanas com menos trabalho, consegui disponibilidade mental para acabar este American Gods, de Neil Gaiman, cuja leitura se arrastava desde Março! Oh deuses... Bom, a verdade é que a minha vida deu algumas reviravoltas e entre muito cansaço, falta de concentração e outras coisas para fazer nos tempos livres, a leitura foi-se arrastando. Não por causa da qualidade do livro, mas por falta de mais horas em cada dia. Mas vamos ao que interessa: a minha opinião.

Este livro começa com a personagem principal, Shadow, a sair da prisão e, através de circunstâncias estranhas, a conhecer Wednesday, para quem passa a trabalhar como uma espécie de guarda-costas. Ambos começam uma viagem pelo território americano, onde Shadow vai conhecendo personagens bastantes peculiares e interessantes que, para os leitores mais atentos, são os deuses antigos e os deuses modernos. A premissa é a de que uma guerra entre deuses antigos e modernos está prestes a começar, em que os deuses e as criaturas mitológicas antigas só existem enquanto as pessoas acreditarem neles, algo que tem vindo a ser suplantado pela crença nos deuses modernos, reflectindo a obsessão actual pela tecnologia, os media, as celebridades, entre outros.

Wednesday e Shadow viajam, então, tentando recrutar os deuses antigos para essa batalha e essa viagem é um dos aspectos mais interessantes do livro. Temos uma verdadeira "road trip", onde Shadow vai a cidades e vilas da América mais profunda, a locais pitorescos e marcantes, como é o caso da House on the Rock, uma atração turística que existe no estado do Wisconsin, cuja descrição causa uma sensação de estranhamento no leitor, alinhando-o com o mesmo sentimento em Shadow. 

Do que mais gostei, para além de conhecer vários locais diferentes dos Estdaos Unidos, foi o encontro com os vários deuses antigos. É interessante ver como Wednesday (que é Odin) tenta recrutar todos os outros deuses, das mais diversas origens, para a batalha e como Shadow reage a todas aquelas coisas inimagináveis que lhe estão a acontecer. Para mim, o livro vem demonstrar como a América começou como e sempre será um "melting pot", ou seja, a sua essência está na diversidade de povos que aí começaram as suas vidas, de todas as crenças, costumes e deuses que trouxeram e de como, cada vez mais, actualmente, eles são esquecidos em detrimento de novas formas de veneração a ideias que não têm tanto valor nem significado. Ler este livro num momento tão importante como o que os Estados Unidos estão a viver foi crucial e penso que a série de TV estreou na altura certa, dentro deste contexto político, social e cultural que se está a viver.

Dentro da narrativa principal existem alguns interlúdios que nos mostram como alguns deuses chegaram ao Novo Mundo, ou como subsistem na era contemporânea, e gostei muito desses momentos. Não achei que quebrassem o ritmo do livro. Pelo contrário, achei que acrescentaram conhecimento à história dos deuses e quase que os tornam humanos, pessoas como eu e como com as quais me posso cruzar todos os dias. E penso ser esta a principal ideia com que fiquei: os deuses, as crenças, as tradições, todas as memórias culturais só permanecem vivas, só têm lugar no nosso mundo, enquanto houver quem ainda as siga, quem ainda se lembre delas e as vá passando de geração em geração. Estas heranças são importantes e é isso que molda um povo, que faz a sua cultura e que nos preenche, de facto.

Gostei bastante deste livro, apesar de ter demorado tanto tempo a lê-lo, e acho que põe questões muito pertinentes, principalmente numa altura como a que vivemos, seja na América ou não. Penso que este não é um livro de personagens apaixonantes, mas sim uma história que nos obriga a questionar sobre as nossas origens, sobre o que realmente valorizamos, sobre o quão fácil é esquecer aquilo que já foi e não ver como isso influencia o presente. É mais um livro sobre ideias e reflexões sobre elas, do que o contar de uma história. O livro fala sobre tudo um pouco: fé, religião, amor, amizade, o poder da tecnologia, sobre o que é ser humano e uma divindade e, por isso, é um livro muito rico em observações pertinentes que nos fazem reflectir sobre o nosso mundo. Gostei muito de Shadow, a personagem que nos guia por esta viagem e que fica tão perplexo com algumas coisas como nós, leitores. Sinto que ele cresce e aprende ao longo desta viagem geográfica mas, também, pessoal e espiritual. 

Este é um livro que tem muita coisa que se lhe diga, muitas ramificações. Para mim, foi uma viagem muito gratificante e só tenho pena de não ter conseguido ler o livro todo de uma só vez, penso que teria tido outro impacto em mim.

5/6 - Muito Bom

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